Depois, há sempre quem nos indique “novas teorias”, mais eficazes, receitas instantâneas “para ser feliz em duas ou três lições”… Outros há que nos apontam para uns livros de “espiritualidades assim assim”, ou recomendam-nos ao mais “especializado santinho” que houver para curar os nossos males, com a respectiva devoção a acompanhar. E a gente cá vai andando…
Gostava de partilhar contigo uma coisa: a originalidade dos cristãos é poderem experimentar, em contexto comunitário e escuta da Palavra de Deus, a Vida Teologal de Fé, Esperança e Amor. Esta é a nossa Espiritualidade, ou seja, a acção do Espírito Santo em nós!
A Vida Teologal é o próprio rosto do cristão, animado pela dinâmica do Baptismo no Espírito de
Jesus Ressuscitado. A Fé, a Esperança e o Amor são as experiências fundamentais do coração humano quando este se deixa consagrar pelo Espírito Santo. “Teologal” significa “que brota de Deus”, que se enraíza na experiência da Sua acção como Deus Vivo e Verdadeiro no nosso íntimo. Assim, a Fé, a Esperança e o Amor são a resposta agradecida dos corações que descobrem Deus como absoluta Fidelidade e Amor.
E isto nada tem de teórico! Não é uma “nova devoção” nem um conjunto de “palavras bonitas”. Ou
melhor, não pode ser… para nossa Felicidade, não deve ser; mas isso depende de nós… A verdade ou o vazio do que vivemos e acreditamos depende das nossas próprias opções. Por isso quero propor-te que “aterremos” a nossa Espiritualidade, quero pedir-te que retires a Vida Teologal do “baú das doutrinas” e a tornes verdadeiramente na única coisa que ela pode ser: Vida!
Quero propor-te uma Espiritualidade Prática em que a Vida Teologal é isso mesmo: Vida! Porque a
Vida não se “tem”, nem se “sabe”… Pratica-se! Nunca tinhas pensado nisso? Somos todos “praticantes de vida”…
Então, aprendamos a FÉ Prática: porque uma confiança em Deus que não me faça confiante em
mim próprio, nas minhas capacidades e projectos, que não me ajude a confiar na beleza da vida e do futuro, na bondade dos outros e na sua capacidade de verdade, é uma fé que não me interessa. Uma fé em Deus que não me conduza à fé em mim, nos outros e na vida, só serve para escolher imagens de santinhos em porcelana e quadros bonitos para pôr nas paredes, mas não nos recria na intimidade com o Deus que permanentemente quer “fazer novas todas as coisas” (Ap 21, 5) e nos quer fazer “nascer de novo” (Jo 3, 3).
Aprendamos a ESPERANÇA Prática: porque uma esperança em Deus que se limite a estar à minha
espera no “parapeito da morte”, não tem nada a mudar no concreto dos meus dias. Porque é no mais
concreto e inesperado dos meus dias que é necessário enraizar-me na fidelidade de Deus e na força
vitoriosa do Seu Amor por mim, capaz de me libertar de todas as fatalidades e desesperos, capaz de me inspirar atitudes optimistas e criativas diante de todas as realidades.
Aprendamos o AMOR Prático: porque um amor a Deus que não me faça livre, audaz, sonhador,
corajoso e lutador por aquilo que é bom, digno e verdadeiro, não passa de uma “paixoneta” que não me interessa, um sentimentalismo simpático, às vezes pacificador, mas que não revoluciona o mundo interior do meu coração. Porque o amor de verdade faz-nos sempre pessoas diferentes, abre-nos o peito à vida, o rosto aos outros e as mãos à partilha.
É disto que te quero falar, é isto que te quero propor: Espiritualidade Prática! Para que a Vida
Teologal seja uma fonte de Sabedoria prática no nosso dia-a-dia. Sim, garanto-te que, na medida em que conformarmos a nossa mente com a Palavra de Deus e o nosso coração com o Espírito Santo, da Fé irão brotar Opções Confiantes, da Esperança nascerão Atitudes Optimistas, e do Amor arrancarão Objectivos Audazes.
Então, tudo muda… a começar por nós, claro! Porque é sempre por nós que se começam as mudanças importantes…"
Rui Santiago
